“Nunca desanimei com a dificuldade; sempre busquei alternativas e soluções e por isso cheguei onde estou”. Foi com essa frase que Aparecido Viana começou essa entrevista. Nascido no interior de São Paulo, e de origem humilde, trabalhou na roça até os 15 anos de idade, quando ‘desembarcou’ com a família em São Caetano do Sul, a chamado do irmão mais velho.
Comemorando neste mês seus 34 anos de atividades no ramo imobiliário, o proprietário da ‘Aparecido Viana Imóveis’ faz na MercNews uma retrospectiva de sua trajetória, que tem orgulho de contar.
Emocione-se também com a sua incrível história.
Da Redação
MercNews – Diga seu nome, profissão, idade...
Aparecido Viana – Bom, sou Aparecido Viana, nascido em Bálsamo, interior de São Paulo, capital de São José do Rio Preto. Tenho 61 anos.
MN - Como o senhor veio para o ABC?
AV – Em razão do senso de oportunidade do meu irmão mais velho, Antonio Viana, que veio para a região em busca de trabalho. Depois de dois anos ele trouxe o resto da família. A nossa situação na roça não era das mais fáceis e naquele tempo – 1963 - havia muita oportunidade de emprego por aqui, porque poucos anos antes o presidente Juscelino Kubitschek tinha aberto a indústria automobilística. Então havia oferta de emprego nesta região, enquanto no interior os problemas aumentavam em razão dos períodos de entressafra. O fato é que vim para cá com 15 anos, de ‘calça curta’, porque faltava dinheiro para completar o resto da calça. Na verdade viemos em seis para morar em um cortiço, com quarto, cozinha e banheiro do lado de fora.
MN – E quando começou a trabalhar?
AV – Acho que com três anos. Na roça todos trabalhávamos, não importando a idade, mas sim, a capacidade de servir. E eu com pouca idade já levava a marmita para meus pais e irmãos, que estavam trabalhando na roça. Não tinha condições de pegar no pesado, mas já ajudava.
MN – O senhor tem quantos irmãos?
AV – Éramos seis. Hoje somos quatro.
MN – O senhor estudou quando criança?
AV – Minha vida é cheia de curiosidades. Fiz artes no sentido bom. Uma delas é que na entressafra, em nossa região, não tem como você trabalhar na fazenda porque não sobra serviço nem para os fazendeiros, nem para os colonos. Ficar desocupado eu não ficava, como não fico até hoje, então eu procurei um marceneiro fantástico que me deixou usar suas ferramentas. Ele percebeu que eu tinha muita habilidade, que fazia carrinhos, brinquedos, cabides, que eu inventava coisas com madeira. Enfim, quando passávamos dificuldades, eu ia lá e fazia alguns serviços, que se apresentavam na hora. Fazia de tudo.
MN – Do que o senhor mais se lembra da sua infância?
AV - Uma das coisas que minha mãe me ensinou a fazer foi pegar estrume do pasto e dar um trato nele. Eu recolhia o estrume de gado e cavalo, colocava em um terreno seco, esfolava e tratava. Mas ia vender isso para quem? Aí que está o grande lance. Se você não quiser ficar parado, e entender que dinheiro só vem antes de trabalho, no dicionário, você é obrigado a trabalhar. Então, eu ia às hortas das madames e me oferecia para tratar. Elas aceitavam e perguntavam quanto custava, eu respondia que não era nada, e que elas me dessem aquilo que achassem necessário. Qualquer coisa servia, um pé de alface era dinheiro. Então, em vez de chegar e arrumar a horta dela – os quintais eram grandes - com meu esterco, o que eu fazia? Massageava o coração da pessoa, ganhando seu coração. Quando você ganha o coração da pessoa, ganha todo o resto. Então, eu ia para a horta, pegava a madeira e fazia uma cerca bonita, pegava tijolos velhos e fazia uma passarela, tirava as ervas daninhas e replantava as hortaliças, agradando essa pessoa para que ela sentisse que estava ali para servi-la, com o melhor da minha capacidade. Aí no fim, ela me dava dinheiro ou produtos da mesma horta e ainda divulgava meu trabalho. Assim, eu fui tomando conta de quase todas as hortas da cidade.
MN – Foi aí que o senhor se viu conquistando seu espaço?
AV – Penso que sim, mas na roça eu fiz tudo quanto é coisa que você imaginar, até lidei com cavalo bravo.
MN – Que lições guardou dessa época?
AV – Vejo o meu sucesso, hoje, como consequência do que aconteceu no meu passado e devo isso a minha mãe, que não só me ensinou o trato com as hortas, mas sempre a fazer qualquer trabalho bem feito. Desde cedo aprendi que a chave era fazer qualquer atividade, do melhor modo possível. Então, além de tratar das hortas, eu pegava um carrinho e saía pelas fazendas buscando garrafas, ferros velhos, etc, porque sabia de empresas que compravam esses materiais. Isso tudo fez parte da minha vida. Tive uma escola boa, uma professora muito boa, que dizia que eu tinha muito potencial. Fiz um primário de rigor. Eu era tímido e humilde, aprendi até luta livre para me desvencilhar da timidez.
MN – Como surgiu o curso de Datilografia?
AV – Minha mãe acreditava que eu tinha capacidade e me colocou no curso de datilografia, isso aos 11 anos. Em Bálsamo não existia estrada e era tudo cheio de barro. O curso era em Mirassol, a 16 km de distância, e eu não tinha dinheiro para comprar passagem. Como eu andava todo arrumadinho, tinha que ficar pedindo carona para ir de uma cidade a outra, mas nem sempre conseguia. Ia de caminhão, carro, cavalo, e aí, quando não conseguia carona até um determinado horário, eu saía correndo, atravessava a cidade – que não é tão grande – e subia no trem. Naquele tempo, o serviço de conferência de bilhete era dentro do trem. Eu não mentia e dizia que não tinha bilhete, nem dinheiro e alegava que precisava estudar. Aí eles permitiam que fosse até Mirassol. Fiz os seis meses do curso e após isso fiz concursos de datilografia na região de Rio Preto e passei em primeiro lugar, em quase todos. Justo eu, um bóia-fria, cheio de calos na mão. Mas, recompensar a confiança que minha mãe depositou em mim, foi maravilhoso.
MN – O senhor acredita que foi privilegiado entre seus irmãos?
AV – Todos eles tiveram seus esforços, e chegaram a algum lugar. Só que a vida nos proporciona algumas oportunidades. Meu irmão mais velho, por exemplo, foi responsável por nossa criação junto com meu pai. Apesar de ter só 18 anos, nós o tratávamos como nosso pai, porque ele era responsável e colocava regras, e se esforçou muito por nós, sendo um guerreiro. Ele é minha paixão. Não fui o mais privilegiado, eu ouvi e busquei mais coisas. Só que acho que o curso de datilografia adiantou meu expediente e Deus me colocou no meio de pessoas que me ajudaram no meu plano de vida, sem saber, porque eu tinha muita humildade e sabia que precisava fazer alguma coisa para vencer na vida. Nunca pedi nada para ninguém, só o mais importante, como a oportunidade de estudar.
MN – E o primeiro trabalho?
AV – Cheguei em São Paulo e logo comecei a trabalhar. Me saí bem no primeiro mês, mas como não admitia que ninguém desligasse a minha máquina, acabei brigando. Fui afastado e não lembro quem me indicou para uma cerâmica, onde fui admitido como servente geral. Como sou organizado por natureza, arrumei o local, fazendo o meu melhor e, de novo, criando ciumeira. Organizei tanto o lugar, que acabei por eliminar as vagas de alguns empregados, com aumento de produção da empresa. Nessa época fui convidado para trabalhar nas empresas da família Zambom (Indústria Metalúrgica Zambom e Dimetal), em São Caetano, fazendo tarefas do escritório. Trabalhei por dois anos e, em um determinado período, pedi ao Sr. Armando Zambom que eu pretendia dar continuidade aos meus estudos, porque só tinha o primário e naquele tempo era difícil encontrar vaga, em escola pública. Aí, o Armando Zambom me encaminhou para o Instituto de Ensino de São Caetano do Sul, diretamente com o Vicente Bastos, que me disse que de graça não poderia estudar e que me daria desconto de 50%, só que eu teria que chegar no fim do ano como o primeiro aluno da escola. Se não fosse, seria obrigado a ressarcir todo o valor. Era um desafio. Me virei, arrumei serviço extra, e... passei em primeiro lugar. Estudei de graça no segundo ano e assim foi. De lá fui para o ‘Alcina Dantas Feijão’, porque nunca se deve parar de estudar, isso nunca é demais.
MN – E o passo seguinte?
AV - Depois que saí do Zambom fui para o 1º Cartório de Notas de São Caetano, como auxiliar de escrevente. Pela minha habilidade e vontade de trabalhar passei a datilografar traslados de escrituras e certidões mais rápido que os outros e foi assim que conheci os donos da IAS Imobiliária, porque eles sempre pediam para agilizar as cópias das escrituras deles. Depois que pedi demissão do Cartório fui convidado para trabalhar na IAS Imobiliária. Ao mesmo tempo servi o Tiro de Guerra. Após dois anos, abri um escritório de contabilidade imobiliário com um amigo, mas 15 dias depois eu percebi que meu sócio não tinha boas intenções e eu não permitia isso. Comecei tudo de novo e fui trabalhar na Fris Moldu Car, como auxiliar de DP, saindo de lá oito anos depois, como chefe do Departamento. Tive um patrão muito legal que me ajudou muito, até na construção da minha casa.
MN – Com quantos anos se casou?
AV – Com 20 anos. Tive a Denise, aos 21 anos e o César, com 22. Entre 1972 e 1974 o César ficou internado, época em que minha vida se tornou um inferno. Gastava muito na farmácia e com isso pedi para ser demitido, para eu ganhar o aviso prévio. Fui procurar trabalho e entre uma entrevista e outra resolvi passar na IAS Imobiliária para visitar o Alarico e Paulo, porque saí de lá com um bom relacionamento. Isso foi em 1976 e eu encontrei o Alarico, que queria que eu administrasse a empresa, para que ele se dedicasse à área de Vendas. Comecei na mesma hora e fui checar a carta de clientes. Peguei a primeira ficha e vi que tinha algo errado, porque se você está vendendo seu imóvel, precisa falar de seu diferencial e não só o básico. Procurei os dados, liguei para o proprietário, fui até a casa dele e resolvi mudar a ficha. Foi assim que entrei para a área de Vendas. O negócio se desenvolveu tanto que em determinada época acabei vendendo um imóvel por dia, me tornando Gerente de Vendas da IAS, quando comprei minha primeira casa.
MN – E quando o senhor resolveu criar a sua empresa?
AV – Em 1983. Mas, ainda na IAS comecei a fazer os anúncios dos imóveis, e no outro dia chovia clientes. Aí comecei a vender lançamentos e com o dinheiro que ganhei, arredondei a minha vida. Peguei gosto pelos lançamentos e fiz a empresa evoluir. Mas, em 1983 abdiquei de ficar com a IAS, porque os donos tinham seus herdeiros e foi então que criei a Aparecido Viana Imóveis. Criei o logo, mas não queria ser grande. Eu só queria trabalhar com um gerente e telefonista, para ficar livre e fazer meus negócios particulares, mas não adiantou. Não queria ser dono de imobiliária, mas os grandes donos de incorporadoras queriam que eu continuasse para não perder o elo e muito menos os clientes. Em suma, nesse dia, eu já estava comercializando vários empreendimentos e muitos imóveis de terceiros, com placas para todos os lados.
MN – Vinte e sete anos depois. Quais são as vertentes da Aparecido Viana Imóveis?
AV – Olha, desde 1983 vendi muitos lançamentos, pois peguei áreas certas e comecei a desenvolver vários empreendimentos. Posso dizer que consegui muita coisa nesse período. Recentemente lançamos o Espaço Cerâmica. Eu trouxe a parceria de Aparecido Viana e Magnesita e transferi a parceria para a Sobloco, que fez o grande lance de investir na incorporação do Espaço. Mas, eu sou o idealizador desse sonho e comercializador da área ali dentro. No Espaço Cerâmica não tem fiação aérea, não tem degrau na calçada, a rua tem quase o dobro de tamanho, a irrigação é automática, não tem farol, só rotatória, com grande qualidade de vida. Adoro desenvolver empreendimentos diferenciados tipo esse. Também faço prédios inteligentes, hotéis, Cemitério Vertical, entre muitos outros. Temos muitas parcerias com construtoras e incorporadoras.
MN – No total, são quanto empreendimentos?
AV – Em nome da minha empresa são aproximadamente 500 empreendimentos desenvolvidos. Destes todos, alguns são só consultoria no desenvolvimento e a maioria também na comercialização.
MN – Esse mercado é promissor no ABC?
AV – Sem dúvida alguma. São Caetano não era muito atraente porque a lei de zoneamento era limitada e a malha verticalizável era muito pequena. Então, lutava muito com as autoridades para melhorar o zoneamento, proporcionar uma verticalização com mais qualidade. No passado perdemos grandes empresas porque não havia infraestrutura de qualidade; eram empresas que não iam para barracões, mas para prédios de alta tecnologia. Hoje há seis prédios de escritórios e os seis tem minha participação no desenvolvimento e comercialização. Todos, com grandes níveis de conforto, e por isso temos inquilinos de peso. Sempre defendi junto às autoridades que deveriam ampliar a malha verticalizável da cidade para atrair grandes empreendimentos residenciais e de serviços. São Caetano é uma cidade prestadora de serviços e temos que ter ofertas de prédios inteligentes para abrigar centros administrativos de grandes empresas e obviamente seu crescimento, por falta de áreas, só é possível pela verticalização, aja visto o Espaço Cerâmica. Porque limitaram por tanto tempo a verticalização da Av. Goiás? Hoje ela poderia ser uma Avenida Paulista, com centenas de empresas gerando empregos e receitas. Não quero limitar a capacidade de crescimento da cidade, gosto do desenvolvimento com qualidade de vida. Eu me orgulho em dizer que a maioria das empresas grandes de São Caetano foi o Aparecido Viana quem trouxe.
MN – Quais são as expectativas para 2010?
AV – São grandes. A Aparecido Viana Imóveis veio em crescente, expandiu e consolidou seu nome (para constar, a ‘Aparecido Viana Imóveis’, que é a mãe, está localizada na Avenida Goiás), onde há estrutura para imóveis de terceiros (todo tipo, desenvolvimento, locação e venda). Esta, costumo dizer que é uma “máquina de pensar”, pois é nela que se concentra o desenvolvimento de grandes lançamentos imobiliários. Tenho, também a Viana Negócios Imobiliários, (localizada na Rua Amazonas, 439) onde concentra a grande equipe de vendas de lançamentos, hoje com mais de 200 colaboradores. Há algum tempo tenho a família trabalhando comigo. Minhas empresas são totalmente diferenciadas de tudo e reconheço que isso é consequência do meu esforço em tentar fazer, sempre, o melhor possível. Pretendo trabalhar até quando puder e aguentar, só me dando o direito de fazer as coisas que gosto para relaxar, quando quiser.
