
MercNews - Qual foi a sua inspiração para escrever o livro ‘No Silêncio dos Meus Olhos’?
Claudia Castro - Eu uso a escrita como uma forma de me expressar e desabafar. É a forma pela qual você tem mais tranquilidade para pensar, porque está sentindo, pois quando você fala parece que sai de dentro um desabafo agressivo, estridente. Às vezes, as palavras são impensadas.
MN – Você tem todas as poesias que escreveu?
CC – Não, eu perdi muita coisa, porque sempre escrevi as minhas poesias em cartas, para as amigas, justificando uma situação ou querendo mudar a dor de determinada coisa, por um alívio. Em Minas, a concepção de amizade e companheirismo é muito diferente do que se vê por aqui, porque somos mais unidos e mais próximos. Portanto, eu vivia escrevendo poemas para as minhas amigas, então eu sempre escrevi em cartas. O que eu tenho hoje no livro escrevi dos 18 anos em diante; mas, muita coisa foi perdida.
MN – O que inspira você?
CC - O que me inspira são situações às vezes minhas, outras não. Eu falo em personagens e os assumo em primeira pessoa, o que é bem diferente dos poetas que escrevem atrás de pseudos, como Fernando Pessoa. É muita exposição, como por exemplo, quando eu falo de uma senhora de 60 anos, no livro, que teve várias dificuldades depois que ela se deparou com a casa vazia, sem marido e sem filhos; esse poema chama ‘Reforma’. Então é uma forma que encontrei de mostrar que as pessoas precisam fazer sua reforma e seguir adiante, porque a felicidade é você estar bem e feliz, sem dependência de outros. As pessoas me perguntam se essa mulher de 60 anos sou eu, e respondo que sim, mas mesmo assim elas duvidam. Agora, quando eu falo de uma mulher emancipada, do seu alto nível de sensualidade, elas têm certeza que essa sou eu. Eu posso ser a libidinosa; agora, a de 60 anos, não...(risos).
MN – Esse é seu primeiro livro?
CC – Sim, e agora estou escrevendo um livro de poemas e estou com um outro projeto de escrever um livro sobre separação, porque a separação ainda é um trauma em 90% dos casos.
MN - O livro ‘No Silêncio dos Meus Olhos’ fala sobre as suas visões do mundo, do amor, dos amigos e da família?
CC – Tudo o que eu escrevo é uma visão minha, eu não tenho nenhuma técnica, não tenho nenhuma opinião de ninguém. A base de tudo é o que eu sinto, como por exemplo, a minha relação com meus amigos, porque é muito bom ter amigos de verdade. Eu tenho vários, e sou extremamente grata em tê-los comigo, porque é uma relação diferente; amigo te entende, te perdoa, está ali para qualquer hora. Tudo é uma visão minha e limpa, sobre qualquer imagem, situação que eu vi e escrevi, são as minhas passagens. A família é muito importante, é o limite de tudo, é onde você aprende todas as coisas, todas as noções de caráter, do que você deve ser. A visão que eu tenho dela está exposta, tudo é muito importante para mim.
MN - Há muita emoção no livro. Você é uma pessoa emotiva?
CC – Muito. É engraçado que o livro mostra situações e as emoções geralmente acontecem em diversas delas. A inspiração surge de simples momentos, horas ou minutos de uma determinada situação que eu tenha passado, ou algo que tenha me marcado e que daqui a pouco não tenha mais importância, mas na hora marca. E isso pode ser tanto em situações de amizade, consideração e respeito, ou no amor. A emoção vem, é intensa e, na mesma intensidade que vem, ela termina. O amor é uma emoção que amadurece, fica mais tranquilo, mas não deixa de ser uma avalanche de emoções, ainda mais quando se está sofrendo as incidências das paixões. Aí é perfeito para escrever.
MN – Falando em paixões, você se considera uma pessoa apaixonada?
CC – Não só pelo sexo oposto, mas por tudo. Sou apaixonada pela intensidade que eu vejo a vida. Quando eu estava grávida do meu filho, não me faltaram palpites de mães e de mulheres que me falavam que minha vida tinha acabado, que meu corpo tinha acabado, que eu não conseguiria dormir mais à noite, que o peito ia ficar enorme e eu ia ficar horrível. Eu não sou uma pessoa que tem fixação pela forma, mas sou vaidosa, e isso me faz tão bem que vou atrás dela, em busca de uma harmonia com meu espírito e meu corpo.
MN – Quantos filhos você tem?
CC – Dois, e como eu engordo muito na gravidez, em ambas eu ouvi barbaridades, mas também pude constatar o contrário, depois das duas; e como a maternidade é boa e gratificante. Não adianta levar a maternidade como um sonho, porque não é, não são só rosas, nem tudo na vida são rosas, tudo tem suas perdas e seus ganhos; mas, eu falo da maternidade de uma forma apaixonada, porque além de trazer um ser novo, ela faz você ter uma renovação na vida pessoal, ela traz um complemento que você jamais conseguiria ter de outra forma. A maternidade se sobrepõe a tudo e possibilita que se tenha os momentos mais prósperos. Eu não temo a maternidade; ela é difícil, mas é muito gratificante e faz a pessoa crescer. Se você colocar isso com um fardo, a sua vida toda vai ser difícil, mas, se você souber enxergar de outra forma, vai ser maravilhoso.
MN - Alguém mais da sua família é poeta?
CC – Não, ninguém.
MN - Você se considera uma poetisa, daquelas que precisam ter um cantinho para escrever seus pensamentos?
CC – Uma das coisas que eu mais gosto na minha vida, são meus momentos sozinha. Quando eu viajo só eu crio muito, escrevo muito e nada é premeditado. O lugar que estou me envolve, o povo daquele lugar me envolve, sua forma de trabalhar, sua rotina, que é diferente da minha, me envolve. Então, eu gosto do centro de São Paulo; Salvador mexe comigo; Rio de Janeiro mexe comigo, Minas Gerais também, o lugar que eu nasci... Em todos esses lugares eu não preciso estar acompanhada, eu não sinto falta de companhia para poder apreciar e isso é o que me faz criar. O avião me faz criar; então, se sou poeta, uma escritora? Não sei, talvez daqui a algum tempo eu seja, mas vou continuar assim, escrevendo sobre a simplicidade das pessoas que eu ouço, das coisas que eu vivencio, que eu vejo. As manifestações das pessoas que já leram meu livro também me fazem escrever, pois o que elas me passam me faz escrever mais. Se eu sou ou não, não sei. Sou Claudia, escrevo meus desabafos, quase todos na personagem feminina.
MN – Como é a migração da carreira de advogada para a de poetisa?
CC – Essa pergunta me foi feita por um jornalista dentro do avião, indo para Brasília. Eu estava estudando um processo enorme e ele, com meu livro nas mãos, perguntou se era eu mesma que escrevia aquilo, porque sabe que os advogados têm uma rotina doida. Aí eu larguei o processo e escrevi outra poesia, chamada ‘Flutuo entre Dois Personagens’, um totalmente racional, outro, totalmente flutuante, e fiz um poema. Falo poema, porque não tenho técnica, não tenho rima, é a liberdade na minha escrita, assim como eu. Aí, eu fui pensar nisso, e é exatamente a suavidade da inspiração que acalma a agressividade da Advocacia.
MN – É, então, esta constatação que acalma?
CC – Sim, porque a Advocacia é mesmo agressiva, ela te faz pensar muito e você tem que achar uma saída, você tem que passar por cima de você; quando você não tem um fato, tem que criá-lo e resolver o problema. É o lado pesado da história. Já a poesia, a música, o Vinícius de Moraes – que eu cito nas poesias -, é o lado bom, a maternidade é o lado bom. Então, talvez seja exatamente isso que me faz enxergar o outro lado com mais suavidade. Eu poderia ver o lado ruim da maternidade, ou enxergar a chatice em alguma composição de Vinícius, por exemplo; mas não, eu só vejo o lado bom. Contudo, a Advocacia me nutre, devido aos seus desafios. De um lado existe a razão e do outro, a emoção.
Claudia Castro
Ela viu seu dom para poesia surgir aos 12 anos de idade. Cresceu, formou-se em Direito pela Faculdade de Uberaba (MG), especializou-se em Direito Empresarial, do Trabalho e do Consumidor e acaba de lançar seu primeiro livro de poesias, ‘No Silêncio dos Meus Olhos’.
Com escritório em Santo André, a mineira Claudia conta que sua inspiração vem de passagens pessoais, de outros e dos inúmeros relatos que sua profissão a faz ver, todos os dias. O segredo para manter as duas rotinas? Para ela é fácil, pois diz que a suavidade da inspiração acalma a agressividade da Advocacia, o que faz uma, amenizar a outra.
Por Mariana Buccieri